PÁGINAS

“Dizer que aprendi”...

Por Igor Tupy

Foi no dia 15 de abril de 2005, exatamente às 12h30min, o meu primeiro contato com o canto coral. Nascia ali o coral do IFBA – Campus Vitória da Conquista (antigo CEFET - UNED de Vitória da Conquista), que por três anos seria a atividade da qual eu mais me orgulharia e à qual eu mais me empenharia e que, depois me deixaria tantas saudades e boas lembranças. Eu não sabia na verdade o que estava fazendo alí naquele dia, não tinha a menor noção do que era um coral de verdade, além disso, não cantava ou fazia qualquer outra coisa relacionada com música. Acho que foi mais a curiosidade que me levou àquela sala grande, que dividia espaço com a sala onde tínhamos aula de desenho. Era a curiosidade de saber o que aquele professor novo, que chegou em meados de março no CEFET e estava nos fazendo pronunciar "lá lá lá's" e "tá tá tá's", (naquele momento tão sem sentido, a partir de tantos quadradinhos riscados no quadro-negro - mais tarde isso seria mais intenso nos estudos de ritmo do curso de Leitura e Escrita Musical - LEM) e bater palmas em alturas diferentes, tinha a nos mostrar e a nos falar. O que seria afinal aquele coral?

A sala de música improvisada estava lotada, praticamente todos os meus colegas do primeiro ano (que viriam a ser a base do coral por um bom tempo) e também muita gente do terceiro ano; não haviam sequer cadeiras para todo mundo. Muita gente ali, assim como eu, só estava lá por curiosidade e nem voltaria aos ensaios depois daquele dia. Outros que estavam ali, mas tinham o objetivo de não continuar pois haviam ido ali só saber qual era a daquele professor, não sairiam mais e se tornariam importantes componentes daquele grupo.

Eis que surge o Marcos Ferreira, em pé sobre uma cadeira para poder ser ouvido por tanta gente, nos dizendo sobre postura e falando sobre algumas noções básicas de técnica vocal. Qual não foi a minha surpresa - e certamente de todos os que estavam ali - quando o regente começa a fazer os aquecimentos, pedindo aos adolescentes para movimentarem o corpo, as pernas e braços (como bonecos de Olinda), respirar fazendo aquele barulho diferente de tsssssss... e cantar vocalizes que soavam tão estranhos e tão engraçados naquele momento. Nós nunca tínhamos visto nada daquele tipo. O Piano era pequeno e emprestado, a acústica da sala não era boa. Chega o momento de iniciarmos as atividades: a música era Azul da Cor do Mar, do Tim Maia, com arranjo à três vozes de Patrícia Costa. Para mim era tudo muito novo... Aquela partitura não fazia sentido e eu não conseguia assimilar aquela letra embaralhada, que parecia se repetir (eu não sabia que para achar a continuação da minha letra deveria pular três pautas no sistema seguinte). Começou num ritmo de trabalho naturalmente devagar, que me incomodava muito (eu cheguei a dizer que estava muito devagar pro Marcos, logo no segundo ensaio... ele riu e disse que era impressão), eu não estava acostumado a ficar até duas horas da tarde sem almoçar (a partir dali seria rotina) e acho que isso também estava causando aquele aparente desconforto. Nos dois primeiros ensaios mal conseguimos terminar a primeira parte que se limitava a “Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho muito pra contar, dizer que aprendi”, onde sopranos e contraltos cantavam a melodia em uníssono, só depois dessa parte é que as vozes se dividiam e entravam as vozes masculinas. Eu particularmente não estava gostando daquela música, que só agora vejo que sintetizaria mais tarde o meu sentimento em relação ao Coral do CEFET, sobretudo esses versos que no início foram tão trabalhados e trabalhosos. Não sei se foi com esse propósito que o Marcos a escolheu para iniciarmos as atividades, mas o conhecendo, eu não duvido.

Eu ainda não havia me acostumado àquelas atividades, nem àquela rotina, mas continuei para ver no que ia dar. Com o passar dos ensaios a música Azul da Cor do Mar ia ganhando forma e íamos nos apegando aos poucos. A segunda música, mais fácil que a primeira e da qual nós gostamos muito foi Uma Brasileira, do Herbert Viana, que ficou pronta antes mesmo de Azul da Cor Do Mar. O arranjo era muito simples: duas vozes praticamente, mas soava bem. Depois viriam O Canto da Ema do João do Vale – essa música deu muito trabalho – e Bye Bye Blackbird, que acredito ter sido o momento em que eu começaria a me apegar efetivamente ao coral. A melodia muito legal e a parte do piano tornaram agradável o aprendizado dessa música. Era a música de que mais gostávamos e na qual mais nos divertíamos. Terminaria aí o primeiro semestre e entraríamos nas férias de junho sem realizarmos nenhuma apresentação. Quando voltamos do recesso, no início de julho, o Marcos nos avisa que em agosto teríamos a primeira (e a segunda) apresentação. Ainda teríamos que terminar as músicas estudadas antes do recesso, mas o Marcos inclui no repertório, em função da apresentação que estava marcada num encontro de capoeira na UESB, Berimbau do Vinícius e do Baden Powell. Essas cinco músicas seriam o repertório das nossas primeiras apresentações.

O coral começava a ter um papel muito importante nas minhas atividades no CEFET e isso fica mais forte quando temos a nossa primeira concentração, que seria um preparativo para a nossa estréia. A concentração foi um momento extraordinário de integração, além de ter rendido bastante em termos musicais. Fizemos dinâmicas, brincadeiras, conversamos muito e nos conhecemos melhor... ah, e o lanche estava muito gostoso!

No dia 14 de agosto de 2005 fizemos a nossa primeira apresentação, com 5 músicas no repertório, em um auditório lotado (dos professores e dos pais dos coralistas, é verdade!) ali mesmo no CEFET. Foi um momento muito gratificante para todos nós. No dia seguinte então, com aquela repercussão da apresentação no colégio, estávamos muito satisfeitos. Ainda no êxtase da primeira apresentação fomos para a segunda, na semana seguinte, no Encontro Baiano de Capoeira, que acontecia no teatro Glauber Rocha, na UESB, e foi mais um momento de integração muito legal, inclusive no ônibus, onde fizemos muita bagunça na volta. O Encontro de Corais da UESB no Centro de Cultura seria talvez o momento mais gratificante daquele ano. Fomos o último coral a apresentar (de 18 grupos se não me engano) e o público gostou muito da nossa apresentação. Pronto! Estávamos definitivamente entusiasmados com o Coral. Ainda faríamos naquele ano a apresentação de natal no CEFET e uma apresentação no Natal da Cidade, organizado pela prefeitura, nos quais já estavam no nosso repertorio Aquarela, Natal Brasileiro (com solo de Geysa), Natal Nordestino e O Natal é tempo de Amar, como solo de Geysa e Denis – não sei porque mas o pessoal detestava essa música! Eu estava apegado ao coral e aos coralistas como certamente nunca havia estado por nenhuma outra atividade; aquilo havia me feito muito bem (o CEFET como um todo, mas o coral ajudou bastante). Nas férias não via a hora da volta às aulas.

O ano de 2005 foi um ano especial, por tudo que o CEFET estava me proporcionando, sobretudo o coral. Estava realmente ligado àquilo, e empenhado. O coral passaria a ocupar um espaço importante em tudo o que eu fazia, inclusive os meus sagrados horários do almoço. Os outros anos seriam também muito bons e marcantes, com o surgimento do Coro de Câmara, do Coro Sinfônico, apresentações inesquecíveis como o Coral a Moda Brasileira, Música Sacra em Revista e Lá na Casa dos Carneiros. Mas o ano de 2005 foi sem dúvida o mais marcante, talvez pelo impacto inicial dessa experiência e pelo grupo extremamente unido que tínhamos. Os ensaios e as apresentações foram sempre momentos agradáveis e que contribuíram muito para a minha formação como pessoa, principalmente pelo desenvolvimento do conceito e da noção do trabalho em grupo. E como não prestar homenagem à Maria Eugênia, a pianista que, com tão boa vontade, competência, empenho e amizade nos acompanhava, e que sem dúvida merece ser lembrada como parte do sucesso desse grupo.

Lembro-me que no terceiro ano, muitos dos meus colegas deixaram o coral alegando que iria atrapalhá-los no rendimento do vestibular. Para mim, não! Aquele momento só poderia ajudar e assim o foi, comigo e com aqueles que mais eram empenhados nas atividades do coral. Depois daquela sexta-feira, 15 de abril, nunca mais deixei de cantar em corais, seja nos corais do CEFET, dos quais me orgulho muito em nunca ter faltado a ensaios e ter participado de todas as apresentações enquanto deles participei, e dos outros grupos que essas experiências em 2005,2006 e 2007 me permitiram participar, onde busco ter a mesma conduta. E ver agora que esse projeto, depois de tantas dificuldades, tanta luta, se consolidou e tem obtido grande êxito me deixa orgulhoso e feliz por ter um dia feito parte dele, sobretudo em seus momentos iniciais. Todo esse sucesso coroa a competência, a garra, a persistência e o talento de Marcos Ferreira, a quem eu agradeço por ter entrado nos nossos caminhos tendo a música em sua companhia.

Hoje canto em outros corais, mas levo sempre comigo tudo aquilo que aprendi com Marcos e com os meus amigos no Coral do CEFET - que eu ser criado, passar por dificuldades e se consolidar - e a saudade desse grupo que representa muito na minha vida. E aqueles versos da primeira música que tive a oportunidade de cantar no coral, expressam exatamente o que eu sinto agora, 5 anos depois daquela sexta: “Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho muito pra contar, dizer que aprendi!”.